Experiências, impressões, sentimentos e sonhos... Expressões dinâmicas e abrangentes do vivido emergem, muitas vezes, de peças artesanais que se revelam como objetos biográficos. Os objetos biográficos são construções do mundo material sobre as quais são projetadas experiências de vida do seu possuidor, conforme salientou Janet Hoskins . Como fonte de descobertas, o objeto biográfico ancora memórias e representações. O significado biográfico dado ao objeto é efetivado na presença constante deste elemento material na vida de seus proprietários. Pessoas e coisas não existem de forma separada. Os objetos biográficos contemplam significados simbólicos e idiossincráticos: "contam" a história de seus donos.
O objeto biográfico pode estimular a construção e consolidação de memórias e identidades. Observa-se o recente interesse teórico das ciências humanas pelas narrativas pessoais, ressaltando a relação de comunidades com determinados objetos, denominados biográficos, por permitirem conhecer a história de vida de seus possuidores. Uma peça artesanal pode, em alguns casos, ser depositária de crenças, rituais e experiências pessoais e coletivas, apontando, assim, uma dupla característica: é um objeto intensamente pessoal e simultaneamente social. O artesanato não significa por si, mas por agregar uma gama de experiências. As pessoas se relacionam com tais peças, seja de forma empática ou conflituosa. De qualquer forma, torna-se possível uma leitura dos objetos biográficos nas histórias de vida de quem os possui, seja porque estiveram presentes em momentos importantes de sua vida ou porque foram eleitos por identificações posteriores que possuem um sentido subjetivo.
Ultrapassando gerações, o objeto biográfico permite o contato com o passado, representando experiências vividas. O objeto interessa no seu valor inestimável, como instrumento de registro dos momentos considerados significativos para a construção de histórias de vida. Suscitando posicionamentos reflexivos, o objeto biográfico facilita a elaboração de narrativas por meio da atribuição de sentidos aos vários detalhes do objeto apresentado.
Com seu valor e significado cultural específicos, objetos biográficos resguardam lembranças que poderiam desaparecer, mormente nesses tempos onde tudo é muito passageiro apontando aspectos de identidades líquidas, como afirmou Zygmunt Bauman , caracterizada pela instabilidade, insegurança e fluidez. Em meio às velozes mudanças da sociedade adquirem-se apenas objetos práticos e descartáveis para usar e jogar fora. Por conseguinte, as peças artesanais ganham maior relevância por proporcionar a sensação de pertencimento a uma comunidade.
Objetos biográficos são objetos de memória e esta, segundo
Michael Pollack , é marcada pelo tempo presente em sua dinâmica social, revelando lembranças e esquecimentos em múltiplas dimensões. A memória deve ser entendida também, ou, sobretudo, como um fenômeno coletivo e social, ou seja, como um fenômeno construído coletivamente e submetido a flutuações, transformações, mudanças constantes. Não obstante, verificam-se na construção da memória coletiva muitos elementos de imposição, pois as memórias estão sempre em disputa. Os valores identitários das peças artesanais, tomadas como objetos biográficos, são, assim, cada vez mais disputados socialmente.