Recursos Locais e Artesanato

* Maria Elisa de Paula Eduardo Garavello possui graduação em Economia Doméstica , mestrado em Agronomia Sociologia Rural e doutorado em Ciência Social (Antropologia Social) pela Universidade de São Paulo. Atualmente é professora doutora da USP. Tem experiência na área de Antropologia, com ênfase em Antropologia Cultural , atuando principalmente nos seguintes temas: antropologia da alimentação, comunidades locais, etnociência e artesanato e fibra de bananeira.

RECURSOS LOCAIS E ARTESANATO: IMPORTANTE PERSPECTIVA DE RENDA.

Maria Elisa de P.E. Garavello

A atividade artesanal tem sido reconhecida como um importante setor da economia por sua capacidade de gerar renda, envolvendo utilização de matéria-prima e tecnologias intermediárias, com conseqüente baixo consumo e baixo investimento.

Iniciativas têm sido feitas em diferentes países, no sentido de ampliar as possibilidades do artesanato no mercado atual, aumentando o seu potencial de venda, dando a cada objeto um tratamento adequado, sem perder suas características culturais. Há preocupação em preservar os "designs" e técnicas tradicionais que permanecem em sua forma original, introduzir inovação estética funcional ou simbólica naqueles potencialmente interessantes, mas que necessitam de aprimoramento ou mesmo desenvolver novos "designs" com técnicas tradicionais ou novas técnicas.

Nesse último caso, o desenvolvimento artesanal a partir de recursos locais se configura com grande perspectiva, podendo proporcionar ocupação e renda para satisfação de necessidades básicas de comunidades menos favorecidas, num enfoque de ecodesenvolvimento.

A integração da ótica do meio ambiente é pensada na qualidade de um amplo potencial de recursos, naturais ou residuais, a ser corretamente identificados ao alcance de finalidades sociais, em alternativas que privilegiam a eficácia econômica aliada ao cuidado com a natureza. Envolve a capacidade de gerar e colocar em ação, técnicas com a utilização de recursos disponíveis ao nível local ou regional, a exemplo de artesanatos tradicionais como aqueles desenvolvidos por populações indígenas e comunidades tradicionais em todo o território nacional, confeccionado a partir das espécies nativas. Também inclui a utilização de resíduos da produção agrícola ou industrial resultantes de atividades econômicas locais.

A reciclagem de resíduos e de subprodutos da produção agrícola ou industrial, como fonte de matéria-prima artesanal é ainda pouco explorada como alternativa para geração de renda e constitui um universo extraordinário de possibilidades. Experiências importantes nesse sentido têm sido registradas em Santa Catarina , como o uso de resíduos da tecelagem em tapetes, ou de palha de arroz em almofadas. Merece registro o uso de resíduos vegetais e aparas de papel, na fabricação de papéis especiais, amplamente difundido e praticado, em instituições e associações de promoção social e correlatas, ou ainda em grande escala industrial. Há também a iniciativa de sucesso relativa à utilização dos resíduos do coco, por organizações não-governamenta i s.

O artesanato com fibra de bananeira também se inclui nessa categoria, atividade que se originou na busca de alternativas viáveis do ponto de vista cultural e ambiental para as comunidades do Vale do Ribeira de São Paulo e Jaíba, em Minas Gerais , com o aproveitamento do material cortado após a produção de banana, abundante nessas regiões. Dadas as amplas possibilidades de aplicação dessa fibra para confecção de diferentes produtos, e sua ocorrência em todas as regiões do país, além do baixo custo de implantação, tal técnica se difundiu rapidamente, tornando-se uma experiência de sucesso nessa perspectiva.

Do ponto de vista técnico, o aproveitamento do pseudocaule da bananeira como matéria-prima natural na confecção de produtos artesanais foi inicialmente testado em laboratório, a partir do desenvolvimento de um processo de beneficiamento da palha e da fibra. Foram ainda desenvolvidos protótipos de artigos como esteiras, cortinas, assentos de cadeiras, sandálias, bolsas e outros objetos de uso doméstico e pessoal, além de papel artesanal, verificando a viabilidade da utilização da fibra de bananeira na composição de produtos artesanais e de decoração. Treinamentos foram então realizados nas comunidades, e os resultados têm sido positivos: os produtos vêm sendo comercializados em feiras e exposições, com encomendas para o mercado interno e mesmo para o externo. Tais técnicas foram estendidas desde o Amapá até Santa Catarina, em vários Estados e regiões, e adaptadas aos conhecimentos técnicos das populações locais.

Materiais fibrosos estão muito valorizados atualmente, no meio artístico e de decoração, tendência essa que tem se verificado em nível mundial. Tem-se configurado no campo do design uma tentativa de reaproximação do homem à natureza, uma busca de novas fontes de materiais naturais e o resgate de técnicas tradicionais para seu processamento. Também a reciclagem de materiais se faz alvo de crescente interesse, em tempos de crise ambiental.

Contrapondo-se à saturação da produção de consumo e da construção de ambientes artificiais, propiciados pelo avanço tecnológico e industrial, o artesanato proporciona o individualismo e a originalidade valorizados pelos artistas visuais contemporâneos e propicia uma reação clara à produção em massa e em série da indústria.

O momento é o mais propício e adequado para, a exemplo das experiências aqui apresentadas, se identificar e utilizar essa fonte inesgotável de recursos locais como matérias-primas em soluções criativas no artesanato, como fonte de renda da população mais necessitada.

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