ART’ ESTRUTURADA

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) existem cerca de 8,5 milhões de brasileiros que vivem da produção artesanal. Em Minas Gerais a projeção é de que este número ultrapassa 500 mil artesãos.

Os números que envolvem o faturamento deste segmento (também projetados), são de que no Brasil o valor anual é de 30 bilhões de dólares, correspondente a 3% do PIB e em Minas Gerais perto de 2 bilhões de dólares/ano. Em princípio este número pode parecer alto, mas se considerarmos o número de artesãos envolvidos e os doze meses do ano, chegaremos a uma quantia pequena.

Mas isto só ocorre porque a grande maioria vive a mercê de atravessadores, que são realmente os grandes beneficiados pela produção artesanal, pois como o artesão não foi preparado para o mercado e sempre foi tratado de uma forma paternalista e subsidiada pelos programas sociais governamentais, não sabe e nem conhece o seu potencial como produtor.

Entretanto, este é o único segmento produtivo brasileiro que pôde comemorar em 22 de abril do ano 2000, quinhentos anos de exportação de artesanato para a Europa.

Buscar um culpado para esta situação é quase impossível, pois se por um lado o Estado havia atendido ao artesão com um programa social, acreditando estar fazendo o melhor, o artesão por sua vez se deixou usar, pois era cômodo receber atenção paternalista subsidiada pelo governo, por organismos nacionais e internacionais, não conseguindo ver como esta situação era prejudicial.

Estranho também é que esta realidade se repete em todos os países das Américas Latina, Central e Caribe.

Neste ponto o Brasil está na frente. Se ainda nada de concreto foi realizado, só pelo fato do Programa de Artesanato Brasileiro estar locado no Ministério do Desenvolvimento, da Indústria e Comércio, dentro de uma Secretaria de Desenvolvimento da Produção, demonstra que pelo menos existe uma intenção de tratamento empresarial para o segmento.

Existem diversos outros órgãos governamentais, ou não, que atuam no segmento artesanal, entre eles o Ministério do Turismo, Comunidade Solidária, Sebrae, Agência de Promoção a Exportação e muitos outros, que, apesar da boa intenção de todos os envolvidos, existem grandes problemas que muitos deles não conseguem enxergar.

O que todos estão pretendendo e buscando, é transformar o artesão indigente e pedinte, em um empresário. Mas simplesmente mudar uma cultura que vem desde a época em que Pero Vaz Caminha recebeu dos índios brasileiros um cocar de penas de papagaio e um colar de continhas brancas e em sua carta ao Rei de Portugal trata o nosso índio-artesão, como um pobre coitado que precisa ser atendido, não se faz do dia para a noite.

Temos então que estar atentos a dois pontos:

Primeiro: dar voz ao artesão, deixar que ele determine o que quer e como quer fazer, pois assim, será devolvida a dignidade da decisão e estaremos comprometendo com o seu desejo e envolvendo-o na solução.

O segundo ponto é quem vai apoiá-lo nesta ação. A maioria dos técnicos hoje, não fala a linguagem do artesão e age da mesma forma que Pero Vaz Caminha: decide o que o artesão quer, o que deve fazer, quando iniciar e quando terminar. Tem a preocupação simplesmente com o produto, usando seus próprios critérios técnicos, as formas que acham ser a mais adequada, como se a criatividade do artesão nunca tivesse existido, como se lhes passassem a informação e ele não tivesse condições de decidir o seu caminho.

Quando existem ações de organização, na maioria dos casos, são feitas de uma forma unilateral, por mais uma vez tirando a voz do artesão. A preparação do artesão-indivíduo-empresário, nem pensar!! Quando acontece de uma forma muito incipiente, sempre vem um técnico com “fórmulas”, dizendo que se o artesão aplicá-las ele será um empresário.

Em um diagnóstico realizado pelo Instituto Centro CAPE, os artesãos se reconheceram como responsáveis por mais de 70% dos pontos positivos e negativos que os afligem. Por outro lado, colocaram-se também como responsáveis por mais de 78% das ações que levariam às soluções dos problemas, ou seja, o artesão está consciente de que ele é, e sempre será, o agente da ação de fortalecimento de seu segmento. Somente precisa ser preparado para tal.

O PROGRAMA ART’ ESTRUTURADA

Baseado nas experiências práticas da Central Mãos de Minas, aliando a metodologia utilizada pelo Instituto Centro CAPE, teve início em 1997 o Programa Art’Estruturada.

O objetivo do programa é repassar para o segmento artesanal o know how da Central Mãos de Minas, cujo sucesso baseia-se em três pilares que devem ser executados simultaneamente:

A organização dos grupos
O artesão individualmente tem muita dificuldade de sobreviver com sucesso. Em grupo é muito mais fácil, tanto na hora de produzir, quanto de comercializar, minimizar custos, etc. Mas essa Instituição, mesmo que seja sem fins lucrativos, tem que funcionar como uma empresa: com uma direção consciente de seu papel, buscando a auto sustentação, gestão empreendedora e um planejamento coerente e realista.

Preparação do produto
No mundo de hoje, o artesão tem que entender que os programas paternalistas que compravam qualquer coisa que ele quisesse produzir, acabaram. Hoje o mercado está globalizado, as pessoas estão exigentes com a qualidade e preço. A venda individualizada passou a ser um detalhe na comercialização. Hoje a grande venda é feita para lojistas em todo mundo, onde o volume de produção conta muito na hora de decidir o que comprar. E para atender a este mercado é preciso saber o que ele quer comprar, como melhorar a performance da produção utilizando de tecnologia, melhorar a apresentação do produto com embalagens adequadas, tudo isto ligado a um custo baixo de produção.

Organização do Indivíduo
Apesar do trabalho em grupo, o artesão individualmente é uma pequena empresa, às vezes envolvendo somente ele, outras vezes envolvendo a família e alguns aprendizes. Mesmo trabalhando de forma individual, ele tem que saber que para atender ao mercado de hoje é preciso existir planejamento, verificação de custos, observação do mercado, otimização da produção e principalmente, ter uma postura empreendedora.

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