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INSTITUTO CENTRO DE CAPACITAÇÃO E APOIO AO EMPREENDEDOR
Data: 05 de Abril de 2017

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Empreendedora fatura com tecidos que todo mundo joga fora

A iniciativa acredita que o reúso de tecidos contribui para a redução de impactos negativos da cadeia têxtil e traz impacto social positivo, pois reduz a dependência de tecidos importados de regiões onde prevalece o trabalho análogo à escravidão no setor.

A cenógrafa e figurinista Lu Bueno jamais poderia imaginar que lidar com a enorme tralha de tecidos usados nos espetáculos renderia uma ideia inovadora capaz de virar negócio, muito menos que eles pudessem, rapidamente, prosperar oferecendo alternativas mais sustentáveis ao mercado.

Com cabeça no mundo artístico, as ousadias de criação se restringiam ao palco, mas uma conjugação de inquietudes e o despertar para a lógica da economia compartilhada, na qual o que é problema para uns, poder ser a solução para outros e no final todos saem ganhando, culminaram a concepção do Banco de Tecido – startup de comércio em rede que de desenvolve no rastro de temas bastante próximos do cotidiano: moda e resíduos urbanos.

Ao mudar o escritório para uma pequena casa no bairro Vila Leopoldina, em São Paulo, Bueno já flertava com o mundo não convencional e planejava fazer diferente, mas sempre dentro do ramo sob seu domínio, o das artes cênicas. Até que uma coisa passou a incomodar: a grande quantidade de tecidos que sobrava após a produção de cenários e figurinos.

Em 2013, o boca a boca multiplicado informalmente na sua rede de relações sociais e profissionais gerou expectativa de que um coelho sairia daquela cartola.

“Fosse lá o que fosse, teria de estar associado a uma forma especial de ver o mundo, em uma perspectiva mais integradora.”

Assim, uma ação iniciada sem muitas pretensões entre amigos das artes cênicas ganhou corpo e, dois anos depois, começou efetivamente a se estabelecer como negócio. O diferencial estava em operar como um sistema inclusivo e circular que mobiliza os elos da cadeia têxtil, impulsionando um ciclo com reflexos sociais, econômicos e ambientais.

A possibilidade de dar nova vida aos tecidos despertou grande interesse por parte de diferentes segmentos do mercado à medida que se difundia no Facebook e era apresentado em feiras têxteis. Assim, o modelo se estruturava para funcionar tendo como base uma rede de correntistas que fornecem sobras de seus estoques para que tenham chance de virar novas criações.

Dessa forma, cortes de algodão, sintéticos, popelines, flanelas, feltros, napa e couro, por exemplo, depositados no banco, são moeda corrente – e não lixo. Em síntese: o usuário recebe créditos a cada quilo entregue e, com eles, pode sacar outros tecidos quando quiser.

A título de remuneração do serviço, o Banco de Tecido retém 25% do crédito a cada depósito no regime de troca e vende o tecido a R$45 por quilo. Além do preço, a vantagem é que o acervo conta com tecidos exclusivos e antigos, não encontrados no comércio tradicional e tem, ainda, garantia de origem.

O alvo principal está no atendimento ao nicho das pequenas e médias confecções para acesso a maior variedade de tecidos, permitindo a compra em pequena escala com menor desperdício.

“Nas últimas décadas, o império do fast-fashion mudou as relações comerciais e hoje os estoques nas lojas são renovados de forma muito rápida, a partir de tendências de moda impostas, sem prevalecer a vontade do consumidor.”

Na lógica do Banco de Tecido, a curadoria e o giro do estoque estão a cargo de quem faz depósito no sistema. O pulo do gato é manter ativa essa circulação, beneficiando tanto ateliês de costura e confecções que buscam tecidos de reuso para produzir roupas como grandes tecelagens e importadoras que precisam de soluções mais eficientes e baratas para destinação de seus resíduos. As perdas no processo têxtil são estimadas entre 10% e 20%, com geração de resíduos que muitas vezes não têm o descarte correto.

No momento, a empreendedora finaliza a plataforma de comércio eletrônico destinada a escalonar o negócio, com expectativa de captar investimento de R$300 mil.

O sistema está sendo criado com o apoio do Instituto C&A, que reconhece mundialmente inovações úteis à cadeia têxtil e selecionou projetos para aplicação da metodologia Social Good, voltada para empreendimentos sociais.

O formato começou a ser desenhado e promovido em 2015 pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) para contato com desenvolvedores. Foi quando Bueno entendeu onde poderia chegar e busco auxílio do Sebrae com  objetivo de entender como transpor para o mercado regular uma ideia que nasceu na arte.

Na visão estratégica da cenógrafa, o negócio baseia-se no tripé ar-raiz-terra: o primeiro pilar é representado pela plataforma de e-commerce; o segundo, a raiz, simboliza a rede de comunicação e o potencial de suas ramificações; e, por fim, o terceiro, o chão que estabelece o caminho, é retratado pelas lojas físicas onde os tecidos de reuso são vendidos.

Hoje o negócio reúne três lojas: a Lupa, que originou o negócio, o Lab Fashion, ambas em São Paulo e a Casa Base, em Curitiba.

A esperada expansão dos pontos de venda após o lançamento do sistema digital deverá ocorrer com o uso de contrato de licenciamento de marca e não por meio de franquias. Além disso, incorporar novos itens ao portfólio de produtos aptos a ampliar o ciclo de vida, como os aviamentos, é um passo natural.

Entre pilhas de retalhos no showroom da Lupa, um poema escrito pela empreendedora no quadro fixado à parede revela o que está por vir: “Os botões na lentidão ensinam sobre o tempo, enxergam o vazio. O espaço prestes a ser ocupado”

 

Serviço: 

Banco de Tecidos 

Microempresa

Promove a conexão em rede de empreendedores que usam tecidos em suas atividades, conciliando demanda e oferta e otimizando a gestão de estoques. Trabalha com clientes de pequeno porte e empresas de tecelagem e moda que buscam destinar adequadamente seus resíduos.